“Olhos que sorriem… Toques que sabem conversar e silêncios que se declaram.”

Estamos sentadas em sua cama, na verdade, eu estava, você estava com a cabeça encostada no meu colo, deitada,  meio dormindo, meio acordada, eu lia, apenas lia, seu livro favorito… Em vários momentos tentei parar para observá-la dormir, mas você estava mais que atenta à minha voz e me censurava com as sobrancelhas se eu parasse. O que? Amor também exige parar para observar a serenidade da sua amada dormindo em seu colo, tsc tsc tsc, pode nem mais olhar.

Mas entre uma linha e outra, entre uma palavra e uma sílaba, eu reparava em você, levemente sonolenta, que parecia derreter ao som da minha voz, como se fosse o melhor som do mundo… Eu observava cada detalhe do seu rosto, seu nariz, seus lábios, o contorno do seu rosto, do seu queixo, o desenho dos olhos… Ficava imaginando você me olhando, daquele jeito de menina sapeca, prestes a fazer arte… Menina e mulher, as duas ao mesmo tempo… Decorei o formato das suas sobrancelhas altamente expressivas, que tinham vida própria… Eu sabia de cor, cada detalhe do seu rosto, cada pintinha, a cor rosadinha das suas bochechas que chamava minha boca para um beijo. Sabia os detalhes do seu pescoço, dos teus seios fartos, do teu corpo, das tuas coxas, pernas… Eu tinha decorado cada história que havia escrita em você, minha história favorita, que eu leria, leria, leria e jamais iria enjoar, livro que aguardava o toque dos meus dedos para ser aberto.

Eu continuava a ler, agora de uma maneira mais preguiçosa e sedutora, do jeito que você adora, provocando você pelo som… Mas eu não me escutava, escutava apenas você, o som da sua respiração, descompassada, via seu peito subindo e descendo, de acordo com o seu respirar, escutava o som do seus batimentos, escutava até o som da sua voz, mesmo você estando quieta, eu ouvia… Ouvia porque era o som do meu mundo, junto com a sua risada de anjo.

Depois de algumas páginas recitadas você caiu no sono, cedeu… Não resisti. Ajeitei-a no travesseiro e me deitei ao seu lado, e fiquei observando-a dormir, tão serena, tão pura, era o paraíso… Meu paraíso. Me aconcheguei ainda mais perto de você, tomando cuidado para não acordá-la. Sentia seu calor, seu respirar rente ao meu pescoço, seu cheiro, tão particular, gravado no meu olfato, sentia sua pele macia encostando na minha… Cada novo detalhe seu surgia, com a luz fraca da lua entrando pela janela, iluminando o breu do seu quarto…

Eu transbordei… Como me sentia completa, inteira, nova, como amava, seu amor… Me transbordava, as lágrimas escorriam a cada lembrança do que vivemos, a cada beijo que te dei, que roubei, que me fora roubado por você, a cada toque, uma nova sensação, a cada sensação, uma nova paixão, a cada paixão, um amor… Único, puro, raro… Nosso. Eu sentia a vida que emanava de você, sentia meu corpo preencher-se com a sua essência, com essa vida toda. Eu estava onde deveria estar, com quem queria estar.

“Nenhum lugar do mundo é melhor do que o calor dos teus braços, meu amor” – eu disse em seu ouvido, acho que me ouviu, abriu um leve sorriso, meu sorriso de menina sapeca. Fui distribuindo beijos pelo seu rosto, testa, cabelo, sentindo o cheiro de shampoo que emanava dele. Retornei, aos beijos, para o seu ouvido, você apertou-me um pouco mais para junto de você, então eu sussurrei no seu ouvido – “Feliz aniversário, meu amor”. Você abriu as duas esmeraldas e me fitou, sorrindo com os olhos, beijando-me com ternura.

Talvez um dia eu voe ao seu lado… ou Tudo que eu sei é que eu não sei como ser algo que você sinta falta…

… Então eu a deixei ir, mesmo sabendo que corria o risco de perdê-la para sempre, mesmo depois do meu coração se apertar inteiro e dar murros no meu peito, implorando que não deixasse que ela se fosse, causando-me falta de ar e uma agonia absurda, que fazia meus joelhos tremerem… Mesmo depois do meu estômago ferver com essa agonia, mesmo depois da dor percorrer meu corpo todo isolando-se na garganta, sufocando-me, mesmo… mesmo… mesmo. Mas deixá-la ir não me tornava em nada altruísta, pelo contrário, eu sempre fora egoísta, até o último fio de cabelo, enraizado nos ossos do meu corpo. Eu a deixei ir… E sabe por que deixei? Porque era preciso, porque a amo, mais do que sinto dor, porque…

Para que você tenha uma vida longa e voe alto…

Ela queria escrever, desejava ardentemente escrever. Qualquer coisa, sobre qualquer assunto, estava sufocada com as palavras, precisava respirar, vomitá-las… Queria escrever, mesmo que escrevesse todos os dias sobre assuntos acadêmicos, não era a mesma coisa, faltava alguma coisa, um “quê” a mais…  Mas não conseguia nada, os meses se passaram, e mesmo com a ânsia de escrever, a correria da rotina e das novas obrigações silenciaram esse desejo. Mas mesmo com a falta de tempo e a distância do papel e do teclado do computador, ela ainda tinha aquele sentimento de que precisava deixar seu coração falar… Escrever. Queria deixar seu coração falar, gritar, queria deixá-lo impresso na página, desenhá-lo com sua caligrafia tosca… E quando alguém lesse, notasse que, diante da folha de papel, da página do blog, era ele que falava, era a parte mais honesta dela.

Li(vre)berte-se

Você decide visitá-lo, mesmo depois de tanto tempo, acredita que mudou e que consegue fazer isso sem dificuldade. Mas então você começa a escrever. Digita a primeira frase, tec tec tec, você trava e nota que sim, você mudou, mesmo usando aquele mesmo shorts velho, ou aquele tênis que sua mãe já cansou de mandar você lavar, mesmo tendo aquele olhar de menina assustada ou aquele sorriso bobo depois que ele passa  – apesar que o ‘ele’ mudou de dono. Mesmo escrevendo do mesmo jeito e ouvindo aquela velha música, você mudou. Porque estava na hora, porque era preciso, porque cansou, porque, porque, porque, não importa. Você não é mais a mesma. Está certo que você ainda têm aqueles mesmos sonhos doidos de menina e que ainda mantêm o pássaro azul que há em seu coração preso em uma gaiola, ou mesmo seu espírito que você repreende de vez em quando por sonhar tão alto, por ter tanto medo, por ser tão você, ser tão essência. Tudo bem você ainda manter o mesmo livro como favorito, ou a mesma escritora, apesar que você engrandeceu seu ser, você o encheu de poesia. Então sim, você mudou, o ‘ele’ mudou, o ‘ser mudou. Você está se ‘li(vre)bertando’.

…a pessoa que sou hoje, não é a mesma que fui ontem, que não será a mesma que serei amanhã, até o dia em que não existirei mais.

“A pessoa que não quero ser se preocupa demais em criticar a vida dos outros e escolhas alheias que nada interferem em sua própria vida.

A pessoa que não quero ser é aquela que faz comentários rudes e constrangedores porque acredita que está sendo “sincera”.

A pessoa que não quero ser é um monolito que acredita que tudo o que sempre foi deve continuar a ser, que não questiona as tradições, que tem pavor de mudanças.

Essa pessoa, a que não quero ser, vai fazer as coisas do jeito mais fácil, vai seguir a cartilha, vai fazer o que é esperado que ela faça.

A pessoa que não quero ser é aquela que não assume responsabilidade pelas coisas que diz ou faz.

Não quero ser a tia resmungona. Não quero ser a pessoa que chuta a poltrona da frente no cinema. Não quero ser a pessoa que coloca o som alto demais sem se importar com os vizinhos. Não quero ser a pessoa que corrige o português dos outros em público. Não quero ser a pessoa que faz montagens toscas para postar no Facebook.

Não quero ser a pessoa que comenta sem ler. Que chama a outra de vadia. Que agride desconhecidos pela internet. Que comenta “como fulana está gorda”. Que faz perguntas indelicadas. Que impede o companheiro de ter vida própria, como outro ser humano independente. Que se define pelas coisas que tem. Que vai limitar alguém por conta de seu gênero. Que se deixa limitar pelo que disseram que é mais adequado ao seu gênero. Que afirma coisas sem saber sobre o que está falando. Que não sabe dizer “não sei”. Que quer ter opinião sobre tudo.

Não ser essa pessoa é o trabalho mais difícil a qual me dedico. É um esforço diário. Então repito para mim mesma, o dia todo ‘não quero ser essa pessoa, não quero ser essa pessoa’, esperando que, no final das contas, tudo o que me resta ser que não seja essa pessoa me torne uma pessoa um pouco melhor.”

 

Aline Valek – A pessoa que não quero ser

Árvores, cravos e calmaria

Era definitivamente a quinta-feira mais quente do ano, ela transpirava muito e mantinha o ritmo da respiração acelerado.

“Transpiração” escreveu no caderno “Ato irritante que me acontece com frequência, principalmente nesse verão insuportável. Modo que meu corpo encontrou para se refrescar”. “Leve mal cheiro” pensou ela, anotando logo em seguida “Suar, ato irritante de bactérias intrometidas”. Fechou o caderno, estava terminada a lição de biologia, ou quase isso.

A praça na qual ela se encontrava amenizava toda aquela temperatura agressiva, porém não resolvia por completo, suas maças do rosto com um leve tom rosado e as gotinhas de suor escorriam brincalhonas pelo rosto, pegou um lenço e se limpou. Detestava o calor, todas as ações involuntárias – ou quase involuntárias – que seu corpo era obrigado a fazer para se refrescar deixavam-na irritada. Olhou a sua volta para saber se havia companhia, nada. Apenas ela e as árvores, o calor e um livro. Pegou o livro de dentro da mochila desnecessariamente pesada e o fitou. Ultimamente não lia com a frequência e rapidez que gostaria. Pobre livro, parecia ser tão bom, mas recebia tão pouca atenção de sua dona, coisa que também não lhe agradava. Olhou para cima e viu que uma árvore, um gentil carvalho, refrescava-lhe e protegia do sol. “Gostaria de ser como você”  – Falou encarando sua companhia – “Queria ser assim, forte, útil, linda, como você, tão sabia quanto, queria ser árvore. Árvore ventilador” abanou-se. Inspirou com desejo e sentiu o perfume inebriante dos cravos ao seu lado. Sentiu a calmaria tomando conta de seu corpo.

Estava exausta de tanto calor, resolveu ler para distrair-se, tentando não pensar no quanto estava com calor. Depois de quase trinta minutos de intensas emoções em outro país, aprendendo como curar o desespero alheio e o seu, ela sentiu um leve incomodo no estômago, lembrou-se que não comia já fazia um tempo, talvez horas, e para sua felicidade, além da companhia das árvores, dos cravos e da calmaria, havia também a companhia – distante – de uma lanchonete no final da rua. Deliciando-se de um cachorro-quente, a agressividade da temperatura se fora, e em seu lugar, ficou uma brisa aconchegante e a única preocupação do dia era “Cachorro-quente com uma salsicha ou duas?” Não importava, estava em paz com a calmaria das árvores.

Vou me segurar na esperança de que vou ter você de volta

Metrô lotado, mentes ocupadas, barulhos de fones de ouvido e eu aqui, com o pensamento em você.

Faz um grande frio aqui, não no metrô – estávamos quase como sardinha enlatada, prensados um contra a agonia do outro, compartilhando um a tristeza do outro, se ficássemos mais próximos iríamos compartilhar nossos pensamentos, ainda bem que isso não pode acontecer, ou pode? Se pudesse a moça ao meu lado já tinha pedido para eu me controlar – Faz frio dentro de mim. E tem frio pior? Nem café fumegante dá jeito, nem a bebida mais forte esquenta. Talvez seja a época, o tempo, sei lá. Algum desses fatores tem de explicar isso.

Pulei para fora daquele lugar, metrô ás seis da tarde, lotado de gente estranha, é pedir para manter o pensamento em você.

Coloquei os fones de ouvido da época da escola – consigo lembrar como se fosse ontem você dizendo “Por que você não compra um novo? Um mais moderno?” Desculpe querida, gosto de manter coisas velhas, sentimentos velhos – aumentei até o último volume, sentia meu tímpano estourando, senti meu corpo todo pedindo para diminuir o volume. Não importava, pelo menos não ouvia meus pensamentos, isso importava.

Algo chamou minha atenção no outro lado da rua. Mas não era algo, era alguém, era uma cor, a cor de abobora dos seus cabelos ondulados, era o broche que você e sua irmã compartilhavam desde meninas, era a blusa azul daquele Natal desastroso na nossa casa, era a cor da sua pele branquinha que raio de sol nenhum se atrevia a penetrar e mudar. Eu congelei. Queria correr até você, me ajoelhar e te pedir perdão por ser um idiota, te pedir para compartilhar o frio dentro de mim, não era sempre isso que eu pedia? Mas ao invés de ir até você, eu fugi.

“Ás vezes eu só quero descansar
Desacreditar no espelho
Ver o sol se pôr vermelho
Acho graça

Que isso sempre foi assim
Mas você me chama pro mundo
E me faz sair do fundo de onde eu tô
De novo.

Nada sei dessa tarde
Se você não vem
Sigo o sol na cidade
Pra te procurar

Eu bem sei onde tudo vai parar
Já não tenho medo do mundo
Sou filho da eternidade
Trago nesses pés o vento

Pra te carregar daqui
Mas você sorri desse jeito
E eu que já perdi a hora e o lugar
Aceito.

Nada sei nessa tarde
Se você não vem
Sigo o sol na cidade
A te procurar

Nada de meu nesse lugar
A cidade vai pensar
Que nada aconteceu em vão
Você vai me ligar então mais uma vez”

Marcelo Camelo – Vermelho

O seu dia de chuva

Ela abriu os olhos, parecia que havia acordado no sonho de outra pessoa. Estava diante de um cara qualquer, em um lugar desconhecido, com ar antigo, frio e cheio de rostos esculpidos em madeira, paredes e estatuas. Os pelos de sua nuca se arrepiaram. Um lugar desconhecido cheio de gente, mais do que o shopping aos finais de semana, vestindo um vestido branco tomara-que-caia, olhava ao redor, conseguiu reconhecer poucos rostos, sua mãe estava lá, ao lado de seu pai, e alguns amigos da faculdade. Sua cabeça rodava. Encarou o rapaz á sua frente, ele estava segurando as mãos dela e sorria, um sorriso branco, ao estilo comercial de pasta de dentes, e com um ar bem intencionado, não conseguia vê-lo direito, apenas o sorriso era nítido. Chegavam aos seus ouvidos leves sussurros, eles se quebravam quando chegavam ao encontro de sua orelha, isso a atingiam mais do que aparentavam. O cara ao lado dela falava palavras que perdiam o sentido quando ouvidas, ela quase não as identificava, e ele as pronunciava de uma maneira mecânica. Olhou para sua mãe, que exibia aquela cara de “O que você está fazendo?” Nem ela sabia.“Calma mamãe, vai dar tudo certo” Vai? Ela pronunciou as palavras que o cara ao lado falara, e com isso fechara a porta para os amores. Acabara.

Saindo daquele local desconhecido, com as paredes e estatuas observando-a sentiu a mão do rapaz do sorriso em suas costas, o chão desaparecera, os pelos da nuca arrepiaram-se novamente, ela não conseguia relaxar, mas tinha de manter um sorriso, como se mantêm calma uma criança chorando? Não fazia ideia,  mas tinha de tentar. Um estouro, ela piscou os olhos várias vezes para recuperar a visão. Vários olhares se mantinham sobre ela e o rapaz do sorriso, e vários deles emitindo a mesma pergunta “O que aconteceu com você quando seu coração estava morrendo rápido e você não sabia o que fazer?” os outros olhares já tinham essa resposta. Ela olhou para o céu, começara a chover, uma lágrima contornou o seu rosto e foi se unir á poça d’água que formava embaixo dos seus pés. “Mas o que eles fariam se o coração deles estivesse morrendo rápido, o que eles fariam?” Fariam a mesma coisa que você.

Às vezes parecia
Que, de tanto acreditar
Em tudo que achávamos tão certo
Teríamos o mundo inteiro e até um pouco mais
Faríamos floresta do deserto
E diamantes de pedaços de vidro
Mas percebo agora
Que o teu sorriso
É indiferente
Quase parecendo te ferir

Não queria te ver assim
Quero a tua força como era antes.
O que tens é só teu
E de nada vale fugir
E não sentir mais nada

Às vezes parecia
Que era só improvisar
E o mundo então seria um livro aberto
Até chegar o dia em que tentamos ter demais
Vendendo fácil o que não tinha preço
Eu sei, é tudo sem sentido
Quero ter alguém com quem conversar
Alguém que depois
Não use o que eu disse
Contra mim

Nada mais vai me ferir
É que eu já me acostumei
Com a estrada errada que eu segui
E com a minha própria lei
Tenho o que ficou
E tenho sorte até demais
Como eu sei que tens também.

Legião Urbana – Andrea Doria